O mercado imobiliário português continua a apresentar-se resiliente, mas atravessa uma fase de maior seletividade no atual contexto internacional. Por outro lado, as diferenças de desempenho das várias classes de ativos são cada vez mais evidentes. É o que aponta a Worx no seu mais recente WMarket Mid-year 2026.
Neste primeiro semestre do ano, o investimento imobiliário comercial superou os 1.400 milhões de euros, mais 14% que em igual período de 2025. Por um lado, o retalho e a hotelaria destacam-se pela evolução positiva, com destaque para a compra do Gaia Shopping e do Arrábida Shopping pela Sonae Sierra por 180 milhões de euros, ou pela venda de 72% do Corinthia Lisboa à Orion Capital Managers por cerca de 150 milhões de euros.
Com uma das dinâmicas mais resilientes do mercado, o retalho registou uma subida das vendas de 3% neste período, e de 6% nas vendas online, o que se refletiu numa compressão entre 15 e 25 pontos base nas yields prime. Já as rendas prime, ultrapassam os níveis pré-pandemia, atingindo 145 euros/m²/mês no comércio de rua em Lisboa, 115 euros/m²/mês nos centros comerciais e 13,5 euros/m²/mês nos retail parks.
Já a hotelaria continua a beneficiar do bom momento do turismo, com as dormidas nos alojamentos turísticos a atingir os 36,8 milhões no primeiro semestre do ano, mais 1% que no período homólogo. A taxa de ocupação dos quartos manteve-se praticamente em linha com o ano anterior, com uma média de 54,0% nos primeiros 6 meses do ano. O rendimento médio por quarto (RevPAR) atingiu 62,8 euros e o preço médio por quarto (ADR) situou-se em 116,2 euros no período em análise, correspondendo a aumentos de 3% e 7%, respetivamente.
A Worx destaca que, apesar do ambiente internacional instável, a hotelaria deverá continuar a ser uma das classes de ativos mais atrativas em Portugal, contando que a procura turística se mantém, e que a oferta qualificada se consolida.
Pedro Rutkowski, CEO da Worx Real Estate Consultants, destaca que “o contexto internacional geopolítico e económico revela-se desafiante. Portugal não se exime, mas é resiliente. Face à sua dimensão, continua a revelar resiliência, em que a diferenciação entre ativos será cada vez mais determinante, com muito potencial de crescimento em diversos setores. Esta evolução exige uma leitura mais aprofundada de cada segmento, permitindo identificar onde estão as melhores oportunidades e antecipar as tendências que irão marcar o mercado”.
Escritórios arrefecem
A nota é de abrandamento no mercado de escritórios de Lisboa, que apresenta escassez de disponibilidade, a par com a volatilidade e o risco dos mercados face às tensões no Leste e Médio Oriente que têm resultado no adiamento das decisões de fecho dos negócios. A atividade ocupacional desceu 20% no primeiro semestre, com 66.900 metros quadrados colocados, e deverá chegar aos 150.000 metros quadrados no global do ano. Em paralelo, as rendas prime registaram subidas em todas as zonas de Lisboa, à exceção das Zonas Emergentes, com uma valorização homóloga entre 2% e 20%. Atualmente, a renda prime no Prime CBD (zona 1) atinge os 33,0 euros/m²/mês. Este nível elevado de rendas prime deverá manter-se sustentável, atendendo aos novos padrões de elevada qualidade e certificação de performance de sustentabilidade e bem-estar.
Industrial estabiliza
No setor de industrial e logística, foram colocados 199.200 m² até junho, apenas 1% abaixo do volume registado um ano antes, confirmando uma evolução estável apesar da reconfiguração do comércio mundial, do custo das matérias-primas e da energia e da disrupção das cadeias de abastecimento.
No que diz respeito às rendas prime, estas mantiveram uma tendência positiva, situando-se em 5,65 euros/m²/mês no eixo prime Castanheira–Azambuja e em 7,00 euros/m²/mês em Lisboa, demonstrando a importância crescente da proximidade ao consumidor final.
A resiliência das cadeias de abastecimento, o nearshoring, a diversificação de fornecedores e a necessidade de manter maiores níveis de stock deverão continuar a favorecer a procura por instalações logísticas modernas e estrategicamente localizadas
Obras públicas podem transformar o panorama imobiliário
Pedro Rutkowski também destaca neste relatório que “o investimento em infraestruturas, como o TGV, irá proporcionar uma aceleração no desenvolvimento das zonas mais deslocadas que ficam assim mais próximas das grandes cidades, repercutindo um dinamismo que se alargará ao setor imobiliário. Se a isso juntarmos o potencial da construção modular para acelerar esse processo, deveremos assistir à maior transformação do panorama do imobiliário em Portugal em décadas”, conclui.